Desigualdades de gênero, raça e etnia

O racismo, o sexismo e o etnocentrismo são os principais fatores de
desigualdades que afetam milhões de mulheres negras e indígenas em todo o país. A perversa combinação produz acessos diferenciados entre as mulheres em geral, aprofundando as desigualdades de gênero, raça e etnia na sociedade brasileira.

As estatísticas demonstram que mulheres negras e indígenas são maioria nas
áreas de extrema pobreza no país e apresentam as piores condições de vida. Sob o impacto da negação cultural, enfrentam os danos emocionais gerados pela violenta discriminação cotidiana de gênero, raça e etnia na sociedade, incluindo a violência doméstica. Além disso, vivem com os piores salários, seja qual for a sua ocupação no mercado de trabalho, e estão na base da subrepresentação feminina na mídia e nos espaços de poder.

O acesso desigual à saúde, por exemplo, vem produzindo um quadro de
adoecimento e morte das populações negras e indígenas, onde as mulheres são as mais afetadas em todas as situações.

A invisibilidade da população negra e indígena na mídia bem como dos
problemas que as vitimizam é histórica no Brasil. Há uma naturalização na forma de abordar esses grupos que são hegemônicas na grande mídia. Joel Zito Araújo (2010), por exemplo, analisando a produção televisiva, reconhece o elogio permanente das características estéticas das populações descendentes da Europa como uma ação efetiva da mídia na reiteração simbólica da ideologia do branqueamento.

Examinando a TV pública, Zito concluiu, entre outros fatores, que a há um baixo índice de exibição do pluralismo cultural brasileiro na programação, somado a um alto índice de subrepresentação da população negra e indígena. Esses segmentos, quando representados, não escapam de estereótipos e estigmas consolidados no imaginário social brasileiro.

A pesquisa também avaliou o número de jornalistas na TV pública segundo a
categoria raça/etnia. De acordo com os dados totais, há 93,3% de jornalistas
eurodescendentes contra 5,5% de afrodescendentes, seguidos de 1,2% de
indiodescendentes.

Outro estudo divulgado pela revista “Imprensa” através de artigo assinado por
Flávio Carrança (2001), já apontava as desigualdades entre o número de jornalistas negros ou negras nas redações de jornais, revistas, rádio e televisão em todo o país. Dos cinco mil questionários enviados para as redações, apenas 230 responderam sobre a presença de jornalistas negros ou negras em seus quadros. Deste total, 36% confirmaram ter jornalistas afrodescendentes e 1,6% afirmaram ter profissionais negros ou negras em cargos de chefia ou de maior visibilidade.

Do ponto de vista ocupacional, embora a participação feminina seja crescente
nas redações do país – segundo a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), em 2008, as mulheres já eram maioria entre os/as jornalistas formalmente empregados/as no Brasil (54,4%) – a pouca presença de mulheres negras e indígenas neste setor indica uma estrutura ocupacional pouco plural, o que fortalece a uma visão deslocada e estereotipada da realidade desses grupos.

Para as mulheres negras e indígenas, portanto, o cenário midiático, seja do ponto de vista ocupacional, seja do ponto de vista da imagem veiculada, a situação é ainda mais agravante. Em razão do peso da discriminação de gênero, quando são apresentadas na televisão, além dos papéis submissos e infantilizados, são repetidamente associadas à imagem da mulher sensual, permissiva e que procura as satisfações sexuais (Quintão, 2004), aspectos que lhe são supostamente naturais.

A subrepresentação das mulheres negras e indígenas, o não reconhecimento de
suas demandas específicas, os estereótipos no imaginário social que prevalecem sobre esses grupos, a prevalência da visão de inferioridade, a ausência de imagens positivas e a pouca produção de notícias com foco nos problemas que as afetam e as vitimizam são alguns dos desafios que precisam ser superados pela grande mídia no Brasil.

Por outro lado, a mídia – na qual a atividade jornalística se inclui – e a sociedade brasileira passam por um profundo processo de transformação, sobretudo, na última década. As novas tecnologias da informação têm disponibilizado recursos e ferramentas que oferecem maior capacidade de armazenagem, rapidez, agilidade e trocas de conteúdos, estimulando, por exemplo, o surgimento de inúmeras redes sociais. O fenômeno vem modificando as formas de pensar e agir da sociedade, com efeitos no campo ético, político e cultural.

Essas novas condições de possibilidades, combinadas com a pressão dos movimentos sociais, estão fornecendo as bases necessárias para a construção de um novo marco regulatório político e jurídico para as comunicações.
No rastro dessas mudanças, tem sido inegável o esforço dos movimentos sociais negros, do movimento de mulheres negras, do movimento de mulheres indígenas, bem como das feministas e de alguns setores da imprensa para a construção de uma mídia antirracista, antisexista e pluriétnica.

Enquanto se manter alheia a esses esforços, a mídia continuará sujeita a fazer
coberturas sobre o tema pouco consistentes, desfocadas da realidade, sazonais e com uma visão estereotipada, sobretudo, das mulheres negras e indígenas.
Portanto, ainda é recorrente o uso de estereótipos de gênero, a subrepresentação de mulheres negras e indígenas e a alusão direta ou indiretamente a ideias ou perspectivas de base racista, sexista, preconceituosa, pejorativa e estereotipada.

Em razão disso e, considerando-se a complexidade histórica da sociedade
brasileira, sobretudo, no que se refere às relações etnicorraciais e de gênero, é notória a necessidade de construir metodologias para qualificar a formação sobre gênero, raça e etnia e estimular a produção de pautas e notícias a partir de um novo paradigma midiático.

O/a jornalista, por ser um/a profissional diferenciado/a que lida cotidianamente com a realidade social e suas dinâmicas como um campo de observação permanente, deve estar comprometido/a com o fortalecimento de uma imprensa cada vez mais alinhada à sua função social, cultural e educativa, com base em valores éticos e humanísticos, orientada para o interesse público e sob os princípios estabelecidos pelo Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros.

A finalidade deste Curso de Gênero, Raça e Etnia para Jornalistas – que nasce no momento em que a ONU declarou 2011 como o Ano Internacional  das e dos Afrodescendentes –, é atender à demanda por profissionais qualificados/as para gerar coberturas jornalísticas com profundidade sobre questões de gênero, raça e etnia. O curso cumpre ainda o propósito de contribuir para a formação de profissionais aptos/as a articular suas atividades no combate ao racismo e ao sexismo no Brasil.

4 respostas em “Desigualdades de gênero, raça e etnia

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